CRÔNICA
Você tem fé? Qual o tamanho dela? Gerson a tem. E, certamente, maior que tudo. Vítima de quatro acidentes vasculares cerebrais, os famosos AVCs, passou próximo à morte. As sequelas também não o pouparam. Ficou sem andar e sem falar por quase um ano. Posto à prova com uma cirurgia arriscada, desafiou até mesmo a medicina. E não a fez. Preferiu acreditar em sua fé. Orou. Pediu. Clamou. Foi ouvido. E, por fim, curado.
Esta semana pagou sua promessa. Percorreu mais de mil quilômetros, a pé, até o Santuário de Aparecida do Norte, no interior de São Paulo. Foram 26 dias de caminhada, desde 8 de outubro, quando deixou Campina da Lagoa, na região de Goioerê . Sua chegada aconteceu na manhã da última quinta. Lá, parte da família o aguardava. Entre o cansaço e a fé, muitas lágrimas.
Emoções de quem superou a tudo. Para pagar a promessa, Gerson adentrou ao templo santo de joelhos. Lá, percorreu o trajeto dos romeiros e, próximo ao altar, orou. A promessa estava paga.
Gerson sempre foi um destemido e pobre trabalhador brasileiro. Honrou os exemplos de honestidade e herdou a religiosidade cristã dos pais. Com uma fé gigantesca, trilhou a própria superação numa caminhada solitária de 26 dias. Mas ele não estava só. Foi ao lado de Nossa Senhora Aparecida, a quem é devoto. O percurso, embora difícil, foi docemente suavizado através da meditação. “Não estava sozinho. Deus pai e Nossa Senhora mãe foram comigo. Conversei muito com eles”, revelou.
Foram dias inteiros chuvosos. Nem a capa foi capaz de minimizar a aguaceira. Contou com a ajuda solidária de muita gente. Gente que ainda acredita em gente. E, desde a saída, da pequena Campina da Lagoa, andou em média cerca de 38 quilômetros ao dia. As pausas apenas quando escurecia. Para caminhar, os passos eram no acostamento, sempre contrário aos carros – um ensinamento que só os caminhantes da estrada aprendem. Por fim, uma espécie de cajado o auxiliou no trecho.
Gerson Carlos de Aguiar Correia, aos 46, deixou o conforto do lar com apenas alguns trocados no bolso. No trajeto, teve ajuda de muitas pessoas. Carregou poucos pertences – um carrinho de feira, duas mochilas, uma barraca. Na maioria das noites foi ela quem o socorreu. Também encontrou gente sem rumo, os invisíveis do asfalto. E sempre com boas histórias de vida. Mas como em qualquer cenário, conheceu quem não devia. Pessoas, de certo modo, má intencionadas. Passou ileso, como uma espécie de ser blindado pelo mal.
Gerson é casado e possui dois filhos. Nasceu e foi criado na pequena Campina da Lagoa. Lá, trabalhou na agricultura ao lado dos pais e irmãos. É o terceiro de seis. Estudou até o segundo grau. Mais adiante se transformou em motorista de ônibus e caminhão. Quase sempre ganhou a vida assim.
Mas a vida na estrada, conduzindo os “brutos”, foi pausada. Em 2011, numa das viagens até o Mato Grosso, Gerson teve o primeiro AVC. Com problemas de pressão alta e diabetes, foi derrubado após receber a notícia de que “perderia” o próprio caminhão. “Eu havia o comprado. Paguei R$90 mil e fiquei de pagar outros R$40 mil em alguns meses. Mas o proprietário apareceu e levou o veículo, antes mesmo de eu pagar o valor final”, disse.
A notícia o deixou muito nervoso. Foi o início do AVC. Hospitalizado, saiu vivo, mas com a fala totalmente comprometida por dez meses. “O médico disse que para eu voltar a falar teria que me submeter a uma cirurgia. Teria que retirar um coágulo do cérebro. Mas não dava garantias que eu sairia vivo”, disse.
Sem conseguir falar, Gerson então apanhou uma caneta, um papel e escreveu ao doutor: “Não farei a cirurgia. Vou até Aparecida do Norte pedir à Nossa Senhora que me ajude”. E assim o fez. Ao lado da mãe, Tereza, do pai, José, da esposa Vilma, e dos dois filhos, entrou num ônibus de romeiros e chegou até lá. Até então, se comunicava apenas com gestos e
com a escrita.
Ao chegar no Santuário, Gerson deixou a família na porta santa, se ajoelhou e, devagar, percorreu todo o corredor até o santo altar. Lá, após preces, orações e pedidos, retornou. “Encontrei minha esposa, meu pai, minha mãe e meu filho mais novo. Mas não vi o mais velho. Então perguntei onde estava o Eduardo. E a minha voz saiu. Minha esposa não acreditou. Aliás, ninguém acreditou”, lembrou.
Horas mais tarde, já dentro do ônibus, prestes a voltar para casa, uma senhora o questionou: “Você não rezou o terço para retornar”. Com o coletivo em movimento, ainda com a voz fanha, fina, apanhou o microfone e, quando ia iniciar a prece, olhou pela janela e avistou o santuário. “Me despedi mandando um beijo à minha mãe, Nossa Senhora Aparecida. Mas quando falei a palavra mãe, minha voz voltou ao normal. O milagre tinha acontecido. Então, com o microfone na mão, conclui o terço”, disse. (Dilmércio Daleffe – Nós Humanos).
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