sexta-feira, 2 de outubro de 2026
CRÔNICA

O Eco da Gratidão

02/10/2026
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Pr. Pedro R. Artigas


Há algo curioso no coração humano: ele se acostuma rápido demais com os milagres. O que ontem era motivo de lágrimas e oração, hoje se torna rotina. Aquilo que pedíamos de joelhos passa a ser tratado como algo merecido. Talvez por isso o Salmo 107 repita tantas vezes a mesma frase: “Deem graças ao Senhor por seu amor leal e por suas maravilhas para com os filhos dos homens.” É como um sino tocando na alma distraída.
Numa manhã comum, enquanto o trânsito seguia seu curso e as pessoas caminhavam apressadas pelas ruas, um senhor parou diante de uma praça. Sentou-se em um banco de madeira gasto pelo tempo. Observou crianças correndo, vendedores trabalhando e pássaros disputando migalhas de pão. Nada parecia extraordinário. Ainda assim, seus olhos brilhavam de gratidão.
Quem passava por ali talvez não entendesse.
Há alguns anos, aquele homem se sentia perdido. Carregava o peso das próprias escolhas, das oportunidades desperdiçadas e dos relacionamentos rompidos. Sua vida lembrava os viajantes descritos no Salmo 107: pessoas vagando pelo deserto, sem encontrar cidade onde morar. Caminhava sem direção, cercado de gente, mas profundamente sozinho.
Foi em uma noite silenciosa que decidiu clamar a Deus. Não fez uma oração bonita nem elaborada. Apenas falou com sinceridade. E, como tantas vezes acontece quando o coração se rende, algo começou a mudar. Não da noite para o dia, mas passo a passo. Novas portas se abriram. Pessoas surgiram no caminho. Esperanças foram reconstruídas.
Agora, sentado naquele banco, ele sabia que sua presença ali não era fruto apenas da sorte.
O salmista também fala daqueles que estavam presos nas trevas. Não necessariamente atrás de grades de ferro, mas encarcerados por seus medos, culpas e vícios. Existem cadeias que não aparecem nos registros das autoridades. São invisíveis, mas aprisionam com força. Quantas pessoas sorriem em público enquanto lutam em silêncio contra correntes interiores?
O homem da praça conhecia bem essa realidade. Durante anos foi refém da ansiedade. Seus pensamentos eram como portas fechadas, sem saída aparente. Havia dias em que a alma parecia caminhar por corredores escuros. Porém, ao lembrar sua trajetória, percebeu que Deus havia feito exatamente o que o salmista descreveu: quebrado os portões de bronze e despedaçado as trancas de ferro.
A liberdade nem sempre chega com espetáculo. Às vezes, ela surge na forma de uma madrugada tranquila depois de meses de insônia. Em outras ocasiões, aparece como um sorriso que retorna sem aviso.
O Salmo 107 também fala dos aflitos que adoecem por causa de seus erros e dos marinheiros que enfrentam tempestades gigantescas. Essas imagens atravessam os séculos porque continuam atuais. Todos nós, em algum momento, adoecemos na alma ou navegamos por mares revoltos. Existem tempestades financeiras, emocionais, familiares e espirituais.
Ninguém passa pela vida sem enfrentar ventos contrários.
No entanto, o detalhe mais impressionante do salmo não é a existência das crises. É a repetição de uma verdade: quando clamaram ao Senhor em sua angústia, Ele os livrou.
O homem olhou para o céu. Não era um céu extraordinário. Não havia cores espetaculares nem sinais sobrenaturais. Apenas um céu azul comum. Mas ele sabia que os maiores milagres raramente fazem barulho. Muitos deles acontecem dentro de nós.
Levantou-se do banco e seguiu seu caminho. A praça continuou igual. As crianças continuaram correndo. Os pássaros continuaram disputando migalhas. O mundo não havia mudado.
Quem mudou foi ele.
Talvez essa seja a essência do Salmo 107. Não é apenas um convite para lembrar os livramentos de Deus, mas para cultivar um olhar capaz de reconhecê-los. A gratidão não nasce quando tudo está perfeito. Ela floresce quando compreendemos que, mesmo em meio às dificuldades, fomos guiados, sustentados e alcançados pela misericórdia divina.
Por isso, antes que o dia termine e a correria volte a ocupar cada espaço da mente, vale a pena fazer uma pausa. Olhar para trás. Revisitar os desertos vencidos, as prisões superadas e as tempestades atravessadas.
E então repetir, com a mesma convicção do salmista:
"Deem graças ao Senhor por seu amor leal e por suas maravilhas para com os filhos dos homens."
Porque quem aprende a agradecer descobre que a vida está cheia de milagres que a pressa não permite enxergar.