sexta-feira, 4 de setembro de 2026
CRÔNICA

Distância invisível

04/09/2026
  • A+ Aumentar Fonte
  • A- Diminuir Fonte


Pr. Pedro R. Artigas


O sol do fim de tarde começava a tingir o céu de um alaranjado suave, mas, dentro do quarto, o silêncio pesava. Era um silêncio diferente da paz; era aquele vazio denso que surge quando nos percebemos distantes de onde deveríamos estar. Olhei para a janela e, por um instante, lembrei-me das palavras simples e desconcertantes do apóstolo Tiago: "Achegai-vos a Deus, e ele se achegará a vós."
Tratava-se de uma promessa surpreendente pela sua simplicidade, mas que, na prática diária, parecia por vezes tão difícil de alcançar. Durante semanas, a rotina diária havia sido um emaranhado de compromissos urgentes, telas barulhentas e preocupações triviais. Sem que eu percebesse claramente, uma distância invisível fora se instalando entre o Criador e a minha alma. Não por um grande ato de rebeldia, mas pelo lento desinteresse das coisas corriqueiras.
Sentado à beira da cama, perguntei-me como essa distância começa. Ela raramente se anuncia com trombetas; prefere caminhar de mansinho. Ocorre quando a oração se torna apenas um sussurro rápido antes de dormir, ou quando a leitura da palavra passa a ser um dever cumprido às pressas entre uma notificação e outra do celular. Sem perceber, vamos nos acostumando com a ausência, esquecendo o calor do abrigo seguro.
Todavia, a exortação de Tiago permanece intacta, quase como um convite constante: dar um passo na direção de Deus. Não se exige uma travessia monumental nem grandes jornadas ascéticas. A escritura ensina que o movimento inicial cabe ao coração humano que reconhece sua própria necessidade. Quando nos voltamos com sinceridade para Aquele que nos criou, a resposta não é o silêncio distante, mas a aproximação imediata e graciosa.
O trecho que se segue à promessa traz o caminho para esse reencontro: "Limpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai o coração." Olhei para minhas próprias mãos, não no sentido literal, mas refletindo sobre as atitudes que carregava. Limpar as mãos significa rever as ações cotidianas, a maneira como lidamos com os outros e a honestidade do trabalho diário. Purificar o coração exige olhar para dentro e encarar a divisão de pensamentos — aquele estado de "duplo ânimo" em que tentamos equilibrar o desejo pelas coisas eternas com o apego às futilidades passageiras.
Reconhecer essa divisão interior é o primeiro passo para a mudança. Não há como se aproximar com os braços cheios de excessos ou com intenções divididas. A aproximação exige o desprendimento do que pesa e a disposição de ser moldado novamente.
Decidi, então, fechar os olhos e afastar o barulho daquele dia. Nenhuma oração elaborada saiu da minha boca; apenas um pedido sincero de presença, o reconhecimento da minha limitação e a vontade de estar perto novamente. Não houve um trovão ou uma transformação espetacular no ambiente físico, mas uma quietude sutil começou a preencher o espaço. O aperto no peito deu lugar a uma firme certeza de que não somos abandonados às nossas próprias distrações.
A vida moderna costuma nos empurrar para longe do essencial, sugerindo que a espiritualidade é algo distante ou reservado para momentos extraordinários. Contudo, a mensagem de Tiago lembra que o relacionamento com o Divino é marcado pela proximidade cotidiana. Deus não se esconde daqueles que o procuram com integridade; Ele aguarda a intenção sincera do coração que decide retornar.
Ao abrir os olhos, percebi que o sol já havia se posto quase por completo, dando lugar às primeiras estrelas da noite. O quarto continuava o mesmo, as tarefas pendentes ainda estariam lá no dia seguinte, mas o peso no peito havia desaparecido. Compreendi que o caminho de volta é uma escolha diária, um exercício constante de alinhar os passos e buscar a presença sagrada em meio às tarefas comuns.
Aproximar-se não é um evento isolado, mas uma atitude permanente de humildade e confiança. Bastou um simples passo de fé e um coração disposto para perceber que, na verdade, Ele nunca esteve longe.