sexta-feira, 14 de agosto de 2026
CRÔNICA

A Cidade, o Banco da Praça e a Boa Notícia

14/08/2026
  • A+ Aumentar Fonte
  • A- Diminuir Fonte

Pr. Pedro R. Artigas

 

Naquela manhã de domingo, a cidade parecia ter acordado antes de mim. O sol já se espreguiçava por entre os prédios, e o vento carregava o cheiro de pão fresco da padaria da esquina. Caminhei até a praça — meu ritual semanal — para observar a vida acontecendo. Sempre achei que as praças são confessionários silenciosos: ali, as pessoas revelam quem são sem perceber.

Sentei-me no banco de madeira, aquele que range como se reclamasse da idade. À minha frente, o movimento habitual: crianças correndo atrás de pombos, idosos discutindo política, jovens tirando fotos para redes sociais. Tudo igual, como sempre. Até que não foi.

Um homem aproximou-se. Não era velho, mas tinha o olhar de quem já viu muita coisa. Carregava uma mochila surrada e um sorriso que parecia ter sido treinado para resistir aos dias ruins. Perguntou se podia sentar. Assenti com a cabeça.

Ele ficou alguns segundos em silêncio, como quem mede o terreno antes de plantar uma palavra. Depois disse:

— Engraçado como todo mundo corre, né? Corre pra trabalhar, pra pagar contas, pra chegar antes, pra não perder nada. Mas quase ninguém corre pra contar uma boa notícia.

Aquilo me pegou desprevenido. Não era o tipo de conversa que se espera de um desconhecido numa manhã qualquer. Ele continuou e olhando para as crianças que gritavam ao longe:

— Tem uma frase antiga que diz que a gente deveria ir pelo mundo e anunciar algo que transforma. Não é sobre religião apenas. É sobre vida. Sobre esperança. Sobre lembrar que existe um jeito diferente de caminhar.

Reconheci a referência. Marcos 16:15-16. O convite para espalhar a boa notícia, para viver uma fé que não se guarda em gavetas. Mas ele não citou o texto. Apenas traduziu o espírito dele em palavras simples, quase coloquiais.

— E você anuncia? — perguntei, meio provocando.

Ele riu.

— Eu tento. Às vezes com palavras. Às vezes só com presença. Tem gente que acha que anunciar é subir num palco e falar alto. Eu acho que é sentar-se num banco de praça e ouvir alguém que nunca viu antes.

Fiquei pensando nisso. Quantas vezes eu mesmo havia guardado minhas boas notícias como quem esconde um tesouro? Quantas vezes deixei de dizer a alguém que a vida ainda podia ser bonita, que o dia seguinte poderia ser melhor, que a fé não é peso, mas impulso?

O homem abriu a mochila e tirou um sanduíche embrulhado em papel. Partiu ao meio e me ofereceu. Recusei, mas ele insistiu com um gesto que não deixava espaço para orgulho.

— Boa notícia também se anuncia com pão — disse.

Comi. E naquele pedaço de pão havia algo que não era só alimento. Era lembrança. Era chamado. Era convite.

Ele contou que viajava de cidade em cidade, sem destino fixo. Disse que não tinha muito dinheiro, mas tinha histórias — e que histórias, quando compartilhadas, alimentam mais que comida. Falou de gente que encontrou pelo caminho: uma senhora que chorava porque achava que Deus tinha esquecido dela; um adolescente que queria desistir de tudo; um pai que não sabia como pedir perdão ao filho. Em cada encontro, ele dizia que tentava apenas ser ponte, não muro.

— O mundo anda cheio de muros — comentou. — E a boa notícia é justamente derrubá-los.

Quando percebi, já estávamos conversando há quase uma hora. Ele se levantou, ajeitou a mochila e disse que precisava seguir viagem. Antes de ir, colocou a mão no meu ombro e falou:

— Se você tiver uma boa notícia, não guarde. Alguém pode estar precisando dela mais do que você imagina.

E foi embora. Sem pressa. Sem destino claro. Como quem sabe que cada rua é uma oportunidade.

Fiquei ali, olhando o banco vazio ao meu lado. A praça continuava igual, mas eu não. A frase ecoava dentro de mim como um lembrete insistente: anunciar não é gritar; é viver. É ser testemunha de algo que transforma. É carregar esperança como quem carrega pão — para repartir.

Naquele dia, decidi que também iria anunciar. Não com discursos, mas com gestos. Com escuta. Com presença. Com coragem de dizer que a vida ainda vale a pena. Que a fé ainda move. Que a esperança ainda respira.

E desde então, cada manhã na praça se tornou meu pequeno mundo. Meu campo de missão. Meu lugar de encontro. Porque, afinal, a boa notícia não precisa de megafones. Precisa de gente.

Mas antes e terminar minha boa notícia quero lembrar o que aquele homem tornou vivo dentro de mim. a palavra de Jesus em Marcos capítulo 16, versículos 15 e 16 que diz: “Ele lhes disse: — Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Shalom.