ACONTECENDO AGORA
Pr. Pedro R. Artigas
O relógio da sala marcava 3h17 da madrugada quando ele finalmente desistiu de tentar dormir. Levantou-se devagar, como quem teme acordar os próprios pensamentos, e foi até a cozinha. A casa inteira parecia suspensa num silêncio que não era paz, mas espera. Um intervalo entre o que ele sentia e o que gostaria de sentir.
Abriu a geladeira sem saber o que procurava. Fechou. Encostou as mãos na pia fria. Respirou fundo. Era impressionante como a noite tinha o poder de ampliar tudo: o eco das dúvidas, o peso das perguntas, a sensação de que Deus — se estivesse ali — permanecia quieto demais.
“Até quando?”, murmurou, sem perceber que repetia as palavras antigas do salmista. A frase saiu quase como um soluço, um pedido que já vinha sendo ensaiado há semanas, talvez meses. Ele não sabia ao certo quando começara a sentir que caminhava com um vazio ao lado, como se a presença que antes o sustentava tivesse se recolhido para algum canto inacessível.
Sentou-se à mesa. A madeira tinha marcas de copos, arranhões, pequenas cicatrizes de uma vida comum. Ele passou o dedo por uma delas, distraído, como quem tenta decifrar um mapa. “Até quando vou carregar essa inquietação no peito?”, pensou. Era uma pergunta sem destinatário claro, mas que insistia em voltar como um refrão.
Lembrou-se de quando tudo parecia mais simples. Havia dias em que acordava com a sensação de que o mundo tinha um brilho próprio, como se cada detalhe fosse uma espécie de recado divino. Agora, porém, tudo parecia opaco. Não era desespero — era cansaço. Um cansaço que se acumulava em camadas, como poeira que ninguém limpa porque já não sabe por onde começar.
A verdade é que ele não queria respostas imediatas. Queria apenas um sinal de que não estava falando sozinho. Mas o céu, naquela madrugada, permanecia fechado.
Levantou-se e abriu a janela. O vento frio entrou sem pedir licença, trazendo o cheiro distante de chuva. Lá fora, a rua estava vazia, iluminada apenas por um poste que piscava de tempos em tempos. “Até quando escondes o teu rosto?”, repetiu, desta vez em silêncio.
Foi então que percebeu algo curioso: mesmo sem respostas, ele continuava perguntando. E perguntar, de algum modo, era resistir. Era admitir que ainda acreditava que havia alguém do outro lado da pergunta.
Sentou-se novamente. A madrugada avançava, mas ele já não sentia a mesma angústia de minutos antes. Não porque algo tivesse mudado, mas porque, ao colocar em palavras o que o sufocava, descobriu que não estava tão sozinho quanto imaginava. O salmista, séculos antes, havia sentido o mesmo. E tantos outros depois dele. Talvez a fé fosse isso: uma conversa interrompida, mas nunca abandonada.
Ele apoiou a cabeça nos braços e fechou os olhos. Percebeu que, apesar da sensação de abandono, havia uma espécie de teimosia dentro dele — uma chama pequena, mas insistente. Era como se algo sussurrasse: “Continue. Pergunte. Espere.”
E ele esperou.
Não veio uma resposta audível, nem uma luz repentina atravessando a janela. Veio apenas uma lembrança: a de que o próprio salmo que começa com “Até quando?” termina com “Eu confio na tua misericórdia”. Uma virada suave, quase imperceptível, mas real.
Talvez fosse isso que ele precisava naquela madrugada: não uma solução, mas um lembrete de que a história não termina no desespero. Que o silêncio não é ausência. Que a pergunta não é fracasso. Que a espera também é fé.
O relógio agora marcava 4h02. Ele se levantou, bebeu um copo d’água e voltou para o quarto. Deitou-se devagar, como quem devolve o corpo ao lugar de descanso. A inquietação ainda estava lá, mas já não parecia um abismo. Parecia mais um caminho — estreito, sim, mas possível.
Antes de adormecer, repetiu baixinho, quase como uma promessa: “Eu ainda vou cantar de novo”. Shalom.
ACONTECENDO AGORA
CONSCIENTIZAÇÃO
MOTORISTA FICOU EM ESTADO DE CHOQUE
PEDIA ANULAÇÃO DA ELEIÇÃO