sábado, 16 de maio de 2026
CRÔNICA

A Gravidade da Despedida

15/05/2026
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Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista


O dia amanheceu com um silêncio incomum no Monte das Oliveiras. Caminhávamos em silêncio, passos lentos esmagando folhas secas. Sentíamos o calor do sol, mas um frio estranho ocupava o peito. Ele andava à nossa frente, como sempre fizera. Os últimos anos tinham sido uma tempestade de milagres, mortes e ressurreições. Pensávamos que o ápice da jornada seria o estabelecimento definitivo de um reino visível. Nossos corações de pescadores e publicanos ainda batiam no ritmo da política humana. Queríamos tronos, respostas exatas e o fim imediato da opressão romana.
Ele parou. O vento forte agitou Suas vestes claras. Voltamos nossos olhos atentos para Aquele que desafiou a própria sepultura. Alguém ousou quebrar o mistério e perguntou sobre o tempo da restauração. A resposta dele veio como um bálsamo e uma advertência. Não nos competia saber tempos ou épocas que o Pai reservou para Sua autoridade. O foco deveria mudar da curiosidade para a missão. Receberíamos poder. Seríamos testemunhas. O horizonte geográfico desenhado por Suas palavras era vasto: Jerusalém, Judeia, Samaria e os confins da terra.
Mal sabíamos que aquelas seriam Suas últimas instruções físicas.
O texto sagrado registra com precisão matemática o instante seguinte: "E, havendo dito isto, vendo-o eles, foi elevado nas alturas". A narrativa fria do papel ganha cores viscerais na memória de quem testemunhou. Não houve vento forte de tempestade, nem carruagens de fogo visíveis como nos dias de Elias. Houve apenas uma leveza incompreensível. Seus pés deixaram de tocar a poeira da Judeia. O corpo que carregara as marcas dos cravos subia com majestade serena.
O peso da gravidade parecia não ter poder sobre Ele. Ficamos paralisados. O ar faltou nos pulmões. Meus olhos se arregalaram tanto que a retina ardeu sob a claridade do meio-dia. Olhar para cima tornou-se um reflexo involuntário de adoração e desespero. Ele subia devagar, com a dignidade de um rei retornando ao Seu palácio após uma longa e vitoriosa campanha em terra estrangeira. Suas mãos se estendiam em um gesto eterno de bênção sobre nossas cabeças confusas.
Então, veio o detalhe que encerrou o primeiro ato da nossa história pública: "e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos". Não era uma nuvem de chuva comum. Era a densa fumaça da glória divina, a mesma que guiara nossos antepassados pelo deserto árido. Aquela névoa branca e brilhante envolveu Sua figura com delicadeza. Primeiro sumiram Seus pés, depois Suas vestes e, por fim, Seu olhar acolhedor. A barreira física invisível se fechou. Ele desapareceu na imensidão azul do céu oriental.
A ausência física gerou um vácuo imediato. O silêncio do monte tornou-se ensurdecedor. Continuamos ali, estáticos, com os pescoços esticados e as bocas abertas, fitando o vazio deixado na atmosfera. Sentimo-nos subitamente órfãos, esquecendo a promessa do Consolador que viria. O mestre se fora. A nuvem se dissipara, mas nossos olhos permaneciam colados no teto do mundo.
Dois homens vestidos de branco surgiram ao nosso lado sem alarde. Seus questionamentos trouxeram nossos pés de volta ao chão rochoso: "Homens galileus, por que estais olhando para o céu?". Aquela pergunta foi o estalo que quebrou o transe. A história não terminava com a partida. O mesmo Jesus que subiu voltaria da mesma forma.
Olhamos uns para os outros. O céu estava limpo, mas a terra clamava por ação. Descemos o monte transformados. A nuvem O escondera, mas Seus mandamentos queimavam em nossos peitos. A espera ativa estava apenas começando.
Assim como os apóstolos e os discípulos voltaram do monte prontos para iniciar o mandado de Jesus também nós hoje precisamos estar atentos a esse chamado e proclamar sua Palavra toda terra. Shalom.