sábado, 14 de março de 2026
CRÔNICA

A Lâmpada da Varanda

13/03/2026
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Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista


Dona Alzira tinha uma mania curiosa: todas as noites, antes de dormir, acendia a velha lâmpada da varanda. Não era por medo de ladrões, nem por superstição. Ela dizia que luz acesa “ajuda o mundo a se lembrar de quem é”. Ninguém entendia muito bem o que isso significava, mas ela repetia com a serenidade de quem já viu muita coisa e aprendeu a falar apenas o essencial.
Naquela rua estreita, onde as casas pareciam cochilar umas encostadas nas outras, a lâmpada de Dona Alzira era a única que permanecia acesa até o amanhecer. Os vizinhos achavam exagero. “Gasta energia”, “não serve pra nada”, “ninguém passa aqui de madrugada”. Mas ela continuava firme, como quem cumpre um pequeno ritual de resistência.
Certa noite, Lucas — um adolescente que morava duas casas abaixo — voltava para casa depois de um dia difícil. Tinha discutido com os pais, tirado uma nota baixa e, para piorar, brigado com o melhor amigo. A rua estava escura, silenciosa, e ele caminhava chutando pedrinhas, remoendo tudo o que tinha dado errado.
Foi então que viu a luz da varanda de Dona Alzira. Amarela, suave, quase tímida. Mas era a única luz acesa na rua inteira.
Ele parou por um instante. Não sabia explicar por que, mas aquela luz lhe deu uma sensação de acolhimento, como se dissesse: “Calma. Nem tudo está perdido.”
No dia seguinte, ainda intrigado, Lucas passou em frente à casa dela e encontrou a senhora regando as plantas.
— Dona Alzira… por que a senhora deixa aquela luz acesa a noite toda?
Ela sorriu, como quem já esperava a pergunta.
— Ah, meu filho… porque eu já vivi tempo demais nas trevas para querer economizar luz agora.
Lucas franziu a testa, sem entender.
— Trevas?
— É. — Ela apoiou o regador no chão. — A gente não percebe quando está no escuro. Vai se acostumando. Vai achando normal. Mas quando a luz chega… ah, aí tudo muda. A gente enxerga o que antes tropeçava. Enxerga a si mesmo. E enxerga o caminho.
Lucas ficou em silêncio. Ela continuou:
— A Bíblia diz que nós éramos trevas, mas agora somos luz no Senhor. E que devemos viver como filhos da luz. Sabe o que isso significa?
Ele balançou a cabeça.
— Significa que a luz não é só pra gente. É pros outros também. Luz que só ilumina o próprio umbigo não serve pra muita coisa. A luz boa é aquela que ajuda alguém a encontrar o caminho quando tudo parece escuro.
Lucas pensou na briga com o amigo, na discussão com os pais, na sensação de estar perdido. E, pela primeira vez em dias, sentiu um pequeno alívio.
— Mas eu não sei ser luz, Dona Alzira.
Ela riu baixinho.
— Ninguém sabe no começo. A gente aprende. A luz nasce da bondade, da justiça, da verdade. É isso que Efésios capítulo 5 diz. Não é sobre ser perfeito. É sobre escolher, todos os dias, o que é agradável ao Senhor. Às vezes é pedir perdão. Às vezes é perdoar. Às vezes é só ouvir. Às vezes é ficar em silêncio. Luz não faz barulho, meu filho. Ela apenas brilha.
Aquela conversa ficou ecoando na cabeça de Lucas o dia inteiro. À noite, antes de dormir, ele tomou uma decisão simples: enviou uma mensagem ao amigo pedindo desculpas. Não sabia se seria perdoado, mas sentiu que precisava tentar. Era um pequeno gesto — mas era luz.
Na manhã seguinte, quando saiu para ir à escola, olhou para a varanda de Dona Alzira. A lâmpada estava apagada, vencida pelo sol. Mas, de algum modo, ele sabia que a luz continuava ali.
E, pela primeira vez, percebeu que talvez ele também pudesse acender a sua. 
Estamos entrando na quarta semana da Quaresma, não será o momento de também você amado leitor acender sua luz e brilhar sob a Majestade de Deus? Shalom.