sábado, 28 de fevereiro de 2026
CRÔNICA

Uma palavra sobre a Quaresma

27/02/2026
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Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista


A Quaresma é um tempo que se estende por quarenta dias, entre a Quarta-feira de Cinzas e o Domingo de Ramos, preparando o coração para a celebração da Páscoa. Mais do que uma contagem no calendário, é uma travessia espiritual. É como se a vida ganhasse um ritmo diferente, marcado pela introspecção, pela renúncia e pela esperança. Nesse período, cada gesto simples pode se tornar oração, cada silêncio pode se transformar em encontro com Deus.
A palavra “quaresma” vem do latim quadragésima, que significa “quadragésimo dia”. Esse número não é casual: na tradição bíblica, o “quarenta” simboliza tempo de prova e de preparação. Moisés permaneceu quarenta dias no Sinai, Elias caminhou quarenta dias até o Horeb, e Jesus jejuou quarenta dias no deserto antes de iniciar sua missão. Assim, a Quaresma nos convida a entrar nesse mesmo movimento: um deserto interior onde se aprende a depender menos de si e mais de Deus.
O deserto, porém, não é apenas lugar de privação. É também espaço de revelação. Na solidão e na escassez, surgem perguntas que normalmente abafamos com distrações. Quem sou eu? O que me prende? O que preciso deixar para trás? A Quaresma nos oferece a chance de encarar essas questões sem máscaras. É um tempo de verdade, em que o jejum, a oração e a caridade se tornam caminhos concretos para reencontrar o essencial.
O jejum, por exemplo, não é apenas abster-se de alimentos. É aprender a dizer “não” ao excesso, ao consumo desenfreado, às pequenas dependências que nos escravizam. É um exercício de liberdade. A oração, por sua vez, é abrir espaço para o diálogo com Deus, não como obrigação, mas como encontro. É deixar que o silêncio fale mais alto do que as palavras. Já a caridade é o gesto que transforma a fé em ação: olhar para o outro, especialmente o mais frágil, e reconhecer nele a presença de Cristo.
A Quaresma também nos lembra que a vida é feita de ciclos. Há momentos de festa, mas também de recolhimento. Esse equilíbrio é necessário para que a alegria da Páscoa seja plena. Sem o caminho da renúncia, a ressurreição perde sua força. É como a noite que prepara o amanhecer: só quem atravessa a escuridão entende a beleza da luz. Por isso, a Quaresma não é um tempo triste, mas um tempo de esperança. É o anúncio de que a morte não tem a última palavra.
Na prática, cada pessoa vive a Quaresma de maneira única. Alguns escolhem abrir mão de hábitos, outros intensificam a oração, outros ainda se dedicam mais ao serviço comunitário. O importante não é a forma, mas a intenção: aproximar-se de Deus e preparar o coração para a Páscoa. É um convite à autenticidade, à coerência entre fé e vida.
O mundo moderno, com sua pressa e suas distrações, torna esse exercício ainda mais desafiador. Mas talvez seja justamente por isso que a Quaresma se torna tão necessária. Ela nos lembra que não somos apenas consumidores ou produtores, mas seres espirituais em busca de sentido. É um tempo para desacelerar, para ouvir, para reencontrar o silêncio que cura.
Ao final dos quarenta dias, quando chega a Páscoa, a experiência se revela transformadora. O coração que passou pelo deserto está mais leve, mais livre, mais aberto. A ressurreição não é apenas um evento distante, mas uma realidade presente: a vida que renasce, a esperança que se renova, a fé que se fortalece. A Quaresma, então, mostra seu verdadeiro sentido: não é apenas preparação, mas caminho de conversão, de mudança interior que se reflete no cotidiano.
Assim, a crônica da Quaresma é a história de um tempo que nos ensina a viver com mais profundidade. É a lembrança de que a felicidade não está no acúmulo, mas na simplicidade; não está na fuga, mas no encontro; não está na aparência, mas na verdade. É um convite a atravessar o deserto com coragem, sabendo que do outro lado há sempre a promessa da vida nova. Shalom.