sábado, 14 de fevereiro de 2026
CRÔNICA

O Rei que reina sobre todos

13/02/2026
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Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista


Na praça central da cidade, onde o movimento nunca cessava, havia um banco de madeira gasto pelo tempo. Ali, muitos se sentavam para descansar, observar ou simplesmente pensar. Foi nesse banco que um senhor de cabelos brancos, conhecido por todos como Elias, costumava abrir sua Bíblia e ler em voz alta. Não pregava como um pastor, nem discursava como um professor. Lia como quem conversa com o coração.
Certa tarde, sua voz ecoou sobre o burburinho: “O Senhor reina; tremam os povos. Ele está entronizado sobre os querubins; estremeça a terra.” Alguns passantes diminuíram o passo, outros fingiram não ouvir, mas havia sempre quem parasse para escutar. Elias lia o Salmo 99 sem seus primeiros versículos: “O Senhor reina! As nações tremem! O seu trono está sobre os querubins! Abala-se a terra!  Grande é o Senhor em Sião; ele é exaltado acima de todas as nações!  Seja louvado o teu grande e temível nome, que é santo. Rei poderoso, amigo da justiça! Estabeleceste a equidade e fizeste em Jacó o que é direito e justo”, e cada palavra parecia ganhar vida no cenário cotidiano.
Enquanto lia, uma criança perguntou: “Por que os povos devem tremer?” Elias sorriu e explicou: “Não é o medo que o salmista fala, mas o reconhecimento da grandeza de Deus. Quando percebemos que há um Rei acima de todos os reis, nosso coração se curva em reverência.”
Naquele instante, a praça parecia se transformar. O barulho dos carros, o apito do guarda de trânsito, até o som das conversas se tornaram pano de fundo para uma reflexão maior: o reinado divino que não depende de votos, nem de decretos humanos.
Elias continuou: “O Senhor é grande em Sião, e exaltado sobre todos os povos.” Uma senhora que vendia flores comentou: “É bonito pensar que Ele não reina apenas sobre os que creem, mas sobre todos. Até sobre quem não O reconhece.” Elias concordou: “Sim, porque Seu trono não se limita a fronteiras. Ele é Rei universal.”
As palavras do salmo traziam à memória a ideia de justiça. “Exaltai ao Senhor nosso Deus e prostrai-vos diante do escabelo de seus pés, porque Ele é santo.” Elias lembrava que o texto não falava apenas de poder, mas de santidade. “O poder sem santidade seria tirania. Mas o poder de Deus é justo, e por isso podemos confiar.”
Um jovem que passava, carregando livros da faculdade, parou e disse: “Mas justiça parece tão distante da nossa realidade. Onde está esse reinado quando vemos corrupção, violência e desigualdade?” Elias olhou para ele com serenidade: “O salmo nos lembra que a justiça de Deus é fundamento do Seu trono. Mesmo quando não vemos, Ele age. E mais: nos chama a refletir essa justiça em nossas escolhas.”
A conversa se estendeu. Pessoas que nunca haviam parado para ouvir se aproximaram. O salmo, escrito há séculos, ganhava atualidade na boca de Elias. Não era apenas poesia antiga; era convite à reverência e à prática da justiça.
O trecho “Tu amas o direito; estabeleceste a equidade” foi lido com firmeza. Elias explicou: “Deus não apenas exige justiça, Ele a ama. E quando amamos o que Ele ama, nossa vida se torna reflexo do Seu caráter.”
Naquele fim de tarde, a praça se tornou uma espécie de templo improvisado. Não havia paredes, nem vitrais, mas havia reverência. Cada pessoa que ouviu saiu com algo no coração: uns com esperança, outros com desafio, outros ainda com a lembrança de que há um Rei acima de todos.
O relógio da praça marcou seis horas, e Elias fechou a Bíblia. “Lembrem-se”, disse, “o Senhor reina. E quando reconhecemos isso, nossa vida encontra direção.”
As pessoas se dispersaram, mas a sensação de que haviam participado de algo maior permaneceu. O salmo não ficou apenas nas páginas; tornou-se experiência compartilhada.
E assim, no cotidiano simples de uma praça, o Salmo 99:1-4 se cumpriu de forma viva: povos tremendo não de medo, mas de reverência; justiça sendo lembrada como fundamento; santidade exaltada como essência do reinado divino. Shalom.