CARTÃO ESCOLAR
Pr. Pedro R Artigas
Igreja Metodista
Naquele fim de tarde, a cidade parecia mergulhada em sombras. O sol se escondia atrás dos prédios altos, e as ruas estreitas se enchiam de pressa e de silêncio. Eu caminhava com passos apressados, tentando escapar da sensação de que o mundo, às vezes, se torna um lugar hostil. O medo, esse companheiro invisível, rondava como quem espera uma brecha para se instalar no coração. Foi então que me lembrei das palavras do salmista: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo?”
Há uma força quase poética nesse versículo. Ele não é apenas uma declaração de fé, mas um grito de coragem diante da escuridão. A luz que o salmista invoca não é a do sol que se põe, nem a das lâmpadas que se acendem nas ruas. É uma luz interior, que nasce da certeza de que Deus não abandona. Essa luz não apenas ilumina, mas também aquece, consola e guia. É a luz que dissipa o medo.
Enquanto caminhava, percebi que o medo é, muitas vezes, fruto da imaginação. Criamos cenários de derrota, antecipamos dores que talvez nunca venham, e nos deixamos aprisionar por batalhas que ainda não começaram. O salmista, porém, nos convida a inverter essa lógica: mesmo diante de inimigos reais, mesmo diante de exércitos acampados, ele escolhe confiar. Não porque os perigos não existam, mas porque a presença de Deus é maior que qualquer ameaça.
Essa confiança é quase escandalosa. Quem ousaria dizer, em meio à guerra, que o coração não temerá? Quem ousaria afirmar que, diante da violência, ainda assim estará confiante? O salmista não fala de ingenuidade, mas de fé. Ele sabe que a vida é dura, que há inimigos, que há batalhas. Mas também sabe que a fortaleza da sua vida não está em muros, armas ou estratégias humanas. Está em Deus.
Na crônica da nossa própria existência, cada um de nós carrega seus “exércitos acampados”. Podem ser dívidas que nos sufocam, doenças que nos fragilizam, relacionamentos que se rompem, ou até mesmo a solidão que insiste em nos visitar. O medo se apresenta em diferentes formas, mas a resposta continua sendo a mesma: “O Senhor é a fortaleza da minha vida.” É como se o salmista nos lembrasse que, por mais que o mundo nos cerque, há um espaço inviolável dentro de nós, protegido pela presença divina.
Ao chegar em casa, fechei a porta e respirei fundo. O silêncio do lar contrastava com o barulho da rua. Pensei em quantas vezes permitimos que o medo nos paralise, nos roube a alegria, nos impeça de viver plenamente. E percebi que a coragem não nasce da ausência de problemas, mas da consciência de que não estamos sozinhos. A confiança do salmista é um convite para que também nós aprendamos a olhar para além das circunstâncias.
Talvez seja isso que faz do Salmo 27 um texto tão atual. Ele não fala apenas de batalhas antigas, mas das guerras interiores que travamos todos os dias. Ele nos ensina que a fé não é um escudo que elimina os perigos, mas uma fortaleza que nos sustenta em meio a eles. A luz de Deus não apaga as sombras do mundo, mas nos dá olhos para enxergar além delas.
Naquele fim de tarde, a cidade continuava mergulhada em sombras. Mas dentro de mim, uma luz se acendeu. Não era a luz dos postes, nem a claridade do sol. Era a lembrança de que, mesmo quando tudo parece escuro, há uma presença que ilumina. E essa presença é suficiente para que o medo não tenha a última palavra.
Assim, sigo caminhando. Não porque os perigos tenham desaparecido, mas porque aprendi que a confiança é mais forte que o medo. O Senhor é a minha luz e a minha salvação. E isso basta. Shalom.
CARTÃO ESCOLAR
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