sábado, 17 de janeiro de 2026
CRÔNICA

A Graça que Transborda

16/01/2026
  • A+ Aumentar Fonte
  • A- Diminuir Fonte


Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista


Há textos bíblicos que parecem nos olhar nos olhos e nos lembrar de quem somos, mesmo quando tentamos esquecer. 1 Coríntios 1.5-7: “Pois nele vocês foram enriquecidos em tudo, em toda palavra e em todo conhecimento, porque o testemunho de Cristo foi confirmado entre vocês, de modo que não lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês aguardam que o nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado”; é um desses trechos. Paulo escreve à comunidade de Corinto dizendo que eles foram “enriquecidos em tudo, em toda palavra e em todo conhecimento”, que “nenhum dom lhes falta” e que aguardam “a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo”. É como se ele estivesse lembrando àqueles cristãos — e a nós — que a vida não é apenas sobrevivência, mas abundância.
Em cada palavra que Paulo escreve aos coríntios, há um sopro de eternidade. Ele fala de uma riqueza que não se mede em ouro, mas em dons que brilham como estrelas no céu da alma. “Fostes enriquecidos em tudo”, diz ele, e a frase soa como música que atravessa os séculos, lembrando-nos que a vida não é escassez, mas abundância.
Corinto, cidade de contrastes, fervilhava de vozes, disputas e vaidades. Mas Paulo enxergava além das fachadas: via uma comunidade adornada pela graça, como jardim que floresce mesmo em meio ao concreto. Ele não começa apontando falhas, mas celebrando o que já existe — dons, palavras, conhecimento. É como se dissesse: antes de olhar para as rachaduras, contemplem a beleza das paredes que ainda sustentam a casa.
“Não vos falta nenhum dom.” Que frase luminosa! Quantas vezes caminhamos como se estivéssemos vazios, esquecendo que dentro de nós há sementes de eternidade. Paulo nos recorda que cada gesto, cada talento, cada palavra é dom que nos foi confiado. Não para ser guardado em silêncio, mas para ser partilhado como pão que se reparte.
E há a espera. Aguardamos “a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo”. É uma espera que não paralisa, mas que move. Como quem espera o amanhecer e, enquanto isso, acende pequenas luzes na noite. A vida cristã é esse entrelaçar de presente e futuro: já temos dons, já fomos enriquecidos, mas ainda ansiamos pela plenitude.
Na poesia desse texto, há um convite: viver como quem já recebeu, mas ainda espera. Como quem sabe que a graça é fonte inesgotável. Como quem entende que cada dom é ponte entre o agora e o eterno.
E assim, Paulo nos ensina a olhar para nós mesmos não como desertos, mas como rios. Não como falta, mas como abundância. Não como silêncio, mas como palavra que floresce.
Porque, afinal, nenhum dom nos falta. E isso é poesia suficiente para atravessar qualquer noite. Shalom.